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O Sonho Que Me Acorda

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E o sonho veio em bicos de pés. Como uma bailarina em pontas. Cruzou os braços no parapeito da minha janela. Arrancou-me da boca um pássaro a cantar. E gritou. Tão alto quanto a voz podia suportar: Irrita-me a felecidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. Anda, corre, veste-te. Está na hora. A realidade espera-te aqui fora. Não te atrases. Leva o sonho mesquinho para a solidão dos caminhos.

Os Pássaros

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Um filme marcante de Alfred Hitchcock. O desequilíbrio inesperado. O natural que se torna ameaça repentina. Pássaros a invadir uma pequena cidade e afugentar os seus habitantes. Mexe com o absurdo. Apresenta imagens que nos lembram um sonho. Ao ponto de em certo momento ser possível esperar que um dos personagens acorde. Sobre a natureza, lembro uma frase de Wittgenstein: "que o sol nascerá amanhã é uma necessidade lógica, mas não uma determinação da realidade. O sol pode simplesmente não nascer amanhã." Os ataques dos pássaros desafiam a lógica sobre o mundo, o universo começa a parecer incompreensível. Fazer um filme, onde os bichos papões da historia não são monstros nem tubarões, mas sim singelos passarinhos, foi uma das ideias mais originais de todos os tempos.

Estupidez Humana

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Por falar em estupidez, François Rabelais aconselhava ao seu melhor amigo: "Amigo, perceberás que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembra-te disso." Mas afinal, não será a estupidez humana uma bomba inteligente? Porque a verdade é que existem os estupidos superficiais e os estupidos profundos. Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto que os inteligentes se debatem em dúvidas e indecisões. E quem se debate em duvidas e indecisões não avança, essa é uma verdade. A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista, enquanto que a inteligência se esconde na rectaguarda para ver. Resta saber quem é mais esperto, o que faz por ser visto, ou que se esconde para ver a estupidez do outro. Com estupidez o homem pode enfrentar muitos males. Devemos ser gratos aos idiotas porque sem eles, não seriamos tão bem sucedidos. Quem de nós não foi estúpido, pelo menos uma única vez na vida que atire a prime...

Estranhos

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Por falar em estranhos. Aldous Huxley dizia que os homens são animais muito estranhos: uma mistura do nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo. Raramente somos desagradáveis com estranhos. É preciso conhecer bem e até amar alguém para tratar mal de verdade e fazer sentir mal. Pouca gente ousaria gritar com um estranho sobre coisas tão simples como, o correio espalhado pela casa, ou o rolo de papel higienico que acabou, e não foi mudado. Mas se o fazemos com alguém que amamos, então está tudo bem. Não será isto mais estranho do que falar com estranhos? Talvez o estranho seja um amigo que ainda não tivemos oportunidade de conhecer. Ou um animigo do qual aprendemos a proteger-nos. A verdade mais simples é que quem temos ao nosso lado como um grande amor, começou por ser um estranho. Escolhemos um estranho para casar. È ele que nos põe sem mais nem menos as mãos em febre. E como se não bastasse, ainda nos rapta para o brilho dos seus olhos para que nos esp...

Porque Nos Aproximamos

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Há pouco coloquei algumas dúvidas de molho numa grande teoria de Nietzsche. A grande questão, é porque passamos a vida a encostar-nos a outras vidas que não a nossa. E a explicação caiu-me em frente aos olhos num ápice. "Nós só sentimos agrado para com os outros porque eles são imagens de nós próprios." E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho. A aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais. Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos. Também os outros têm desgosto com o que são. E assim sentimos o alivio: afinal, estamos no mesmo saco. E assim vemo-nos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos. E deixamos de desprezar os outros. A aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação. E...

Aqui Estamos

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Ora aqui está uma verdade crua que muitos teimam em não ver. Corria o ano de 1945 e José Gomes Ferreira numa lucidez impressionante diz-nos isto: "E para aqui estamos. Estatelados no poço. A ver os outros agarrados aos ramos. Com um destino igual ao nosso" Cada vez duvido menos.

O Bicho da Seda Na Caixa de Sapatos

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Às vezes a memória assalta-nos com imagens do passado que nunca morrem. Também eu tive a mania dos bichos da seda. Punha-os a dormir dentro de uma caixa de sapatos forrada com lençois de alface. E á noite escondia a caixa fechada debaixo da cama, numa espécie de protecção desmedida. Cheirava muitas vezes aquela caixa de cartão de espanto vicioso. Um bicho fechado nele próprio num casulo amarelo. Envolvido num cuspo de solidão. Muitas vezes para fugir de mim, também eu me vou tecendo. Só agora entendi o que me prendeu àqueles instantes. Talvez ainda deixe ficar no mundo o desenho de um voo com rasto de pólen.